Aforismos

“Quando nós somos autênticos as pessoas não gostam. As pessoas gostam de ser enganadas.”


Carlos Bernardo Loureiro

“nós não ferimos Deus, nós nos ferimos. O nosso punhal é a nossa insensatez. As nossas dores e sofrimento vem da nossa irresponsabilidade,  da nossa falta de amor. É disso de onde vem o sofrimento, é daí. Então Deus não precisa perdoar, ele apenas nos ajuda através da sua lei.” 

Carlos Bernardo Loureiro

Comentário sobre o vídeo Joseph Maxwell e a refutação à Pierre Janet e a Grasset

 

5 de novembro de 2015

“Deixa eu ver se entendi, você utiliza de de dados científicos para refutar cientistas em nome do espiritismo? Vai estudar! Nem o nome dos pensadores você sabe pronunciar. Subconsciente, inconsciente e psicopatologia você descreve de forma totalmente errada, sério, não sei se seu caso é burrice ou preguiça de estudar. Além de ofender os psicólogos, você da risada dos casos de esquizofrenia, meu amigo, se existe um louco, ele é você! Com essa babaquice de superioridade espirita.”
Bruno Mavely 

Resposta:


Boa Noite!

Ao ler seu comentário sobre o vídeo esperávamos que se comportasse de forma educada e digna ao caráter de sumidade de inteligência que você se atribui. Você é livre para discordar sobre o conteúdo deste vídeo, discutir, analisar, refutar e criticar como critico sério  (o que exige que estude aquilo que critica). Desde que alguém que se atribui ser uma sumidade em inteligência se comporta de maneira tão infantil, se  apegando a forma e deixando a pesquisa sobre o conteúdo,  o que podemos falar aqueles que são taxados de ignorantes?!!! O Espiritismo, que não é uma religião responde:

  1. Procure adquirir os livros dos cientistas que foram citados,
  2. Estude atentamente e faça anotações organizadas sobre o conteúdo dos vídeos e das obras dos cientistas citados;
  3. Não se limite a estudar as obras que afirmam a existência de fenômenos mediúnicos, mas busque estudar também as obras de homens que não admitem os fenômenos mediúnicos ou explicam de maneira diferente da explicação da doutrina espírita. Faça anotações que lhe permitam comparar as diversas explicações.
  4. Depois de conhecer o material teórico que foi escrito sobre o assunto, se dedique a fazer experiências. Busque verificar se existe alguma das explicações que realmente explicam os fenômenos. Lembre que duas ou três experiências são insuficientes para se chegar a alguma conclusão irrefutável, faça várias experiências respeitando as condições de ocorrência do fenômeno. Não experimente baseado em ideais preconcebidas, pois não existe conclusão livre de preconceitos científicos (ou religiosas) com conclusões prontas e acabadas.

 

Com certeza senhor, se aqueles que ouvem os vídeos deste canal agirem de acordo com os 4 conselhos acima saberão se você ou nós estamos falando com conhecimento de causa e produzirão argumentos mais sólidos que burrice e  preguiça de estudar. Lutarão contra os vícios deles para  adequar a maneira de pensar e agir deles a seguinte recomendação da doutrina espírita: Fora da verdade não há salvação. Não consigo entender que um conselho tão tolerante seja sinônimo de inferioridade!
Jorge de Pinho

Eu temo a Deus?

Ah, caro leitor! Ah, cara leitora! Se tem algo na minha vida que eu não tenho e não conseguirei ter, é temor a Deus.
Mas, por favor, compreenda essa minha firme, serena e convicta postura interior e se for o caso, supere aquele terrível dogma que lhe impuseram.
Para esclarecer isto- Basta você me responder a uma única pergunta.
-Como eu poderia ter medo de Alguém... que me ama tanto?

Francisco de Carvalho, autor de Influências Energéticas Humanas
projetoportaluz@hotmail.com

Qual é a melhor de todas as religiões?

Deus é bom e justo; não quer senão o bem; a melhor de todas as religiões é aquela que só ensina o que é conforme à bondade e justiça de Deus; que dá de Deus a maior e a mais sublime idéia e não O rebaixa emprestando-Lhe as fraquezas e as paixões da humanidade; que torna os homens bons e virtuosos e lhes ensina a amarem-se todos como irmãos; que condena todo mal feito ao próximo; que não autoriza a injustiça sob qualquer forma ou pretexto que seja; que nada prescreve de contrário às leis imutáveis da Natureza, porque Deus não se pode contradizer; aquela cujos ministros dão o melhor exemplo de bondade, caridade e moralidade; aquela que procura melhor combater o egoísmo e lisonjear menos o orgulho e a vaidade dos homens; aquela, finalmente, em nome da qual se comete menos mal, porque uma boa religião não pode servir de pretexto a nenhum mal; ela não lhe deve deixar porta alguma aberta, nem diretamente, nem por interpretação. Vede, julgai e escolhei.

KARDEC. Allan. O que é o Espiritismo. Rio de Janeiro: FEB, Cap. I, Terceiro Diálogo- O padre, pag. 147.

Os animais na religião

As ideias religiosas se tornaram as maiores inspiradoras de práticas de excessos no tratamento dos animais. Rebaixou a divindade a condição de eterno famigerado deus (ou deuses), que em troca de um prato de comida aceita qualquer negócio, mesmo contrariando a harmonia do universo, a justiça, o amor e a caridade. Em busca de saciar a fome de famintas divindades (ou divindade) o homem contraria a lei de conservação e a higiene pública para entupir bueiros, sujar os rios, poluir os mares e tornar o ambiente adequado a animais como ratos, baratas, escorpiões, cobras venenosas e outros animais que podem comprometer a saúde do homem. Tudo isto em nome de uma força todo poderosa (ou forças todo poderosas) que se rebaixa (m) perante as criaturas ou coloca (m) os homens ainda mais próximos da fome e da doença, pois alguém que tem muito tira o alimento do prato daquele que tem pouco ou quase nada! As religiões se tornaram comprometedoras quando em uma tentativa desastrada de reabilitar a sua imagem perante a história passaram a incorporar princípios de conservação dos animais que justificados pelo misticismo culminaram no “mate o homem, mas salve os animais” dos tempos modernos. Tudo isto é uma prova de que Deus e o Universo não poderão serem compreendidos através da fé, das religiões, do misticismo; mas através do desenvolvimento da inteligência, que conduz a alma (o espírito imortal) ao desenvolvimento de todas as faculdades e a fé raciocinada. 
Marcos Antonio Borges Sousa

Sessão Anual Comemorativa
do dia dos Mortos

(Sociedade de Paris, 1o de novembro de 1868)

DISCURSO DE ABERTURA PELO SR. ALLAN KARDEC (1)

O Espiritismo é uma religião?

“Onde quer que se encontrem duas ou três pessoas
reunidas em meu nome, aí estarei com elas.” (S. Mateus,
18:20.)

Caros irmãos e irmãs espíritas,

   Estamos reunidos, neste dia consagrado pelo uso à comemoração dos mortos, para darmos àqueles irmãos nossos que deixaram a Terra um testemunho particular de simpatia, para continuarmos as relações de afeição e de fraternidade que existiam entre eles e nós, quando eram vivos, e para invocarmos sobre eles a bondade do Todo-Poderoso. Mas, por que nos reunirmos? Não podemos fazer em particular o que cada um de nós propõe fazer em comum? Qual a utilidade de assim nos reunirmos num dia determinado?
   Jesus no-lo indica pelas palavras que referimos acima. Esta utilidade está no resultado produzido pela comunhão de pensamentos que se estabelece entre pessoas reunidas com o mesmo objetivo.
   Comunhão de pensamentos! Compreendemos bem todo o alcance desta expressão? Seguramente, até este dia, poucas pessoas dela tinham feito uma idéia completa. O Espiritismo, que nos explica tantas coisas pelas leis que revela, ainda vem explicar a causa
e a força dessa situação do espírito.
   Comunhão de pensamento quer dizer pensamento comum, unidade de intenção, de vontade, de desejo, de aspiração. Ninguém pode desconhecer que o pensamento é uma força; mas uma força puramente moral e abstrata? Não: do contrário não se explicariam certos efeitos do pensamento e, ainda menos, a comunhão de pensamento. Para compreendê-lo, é preciso conhecer as propriedades e a ação dos elementos que constituem
nossa essência espiritual, e é o Espiritismo que no-las ensina.
   O pensamento é o atributo característico do ser espiritual; é ele que distingue o espírito da matéria; sem o pensamento o espírito não seria espírito. A vontade não é um atributo especial do espírito; é o pensamento chegado a um certo grau de energia; é o pensamento transformado em força motriz. É pela vontade que o espírito imprime aos membros e ao corpo movimentos num determinado sentido. Mas, se tem a força de agir
sobre os órgãos materiais, quanto maior não deve ser essa força sobre os elementos fluídicos que nos rodeiam! O pensamento atua sobre os fluidos ambientes, como o som age sobre o ar; esses fluidos nos trazem o pensamento, como o ar nos traz o som. Pode,
pois, dizer-se com toda a verdade que há nesses fluidos ondas e raios de pensamentos que se cruzam sem se confundirem, como há no ar ondas e raios sonoros.
   Uma assembléia é um foco onde irradiam pensamentos diversos; é como uma orquestra, um coro de pensamentos, onde cada um produz a sua nota. Disto resulta uma imensidão de correntes e de eflúvios fluídicos, dos quais cada um recebe a impressão pelo sentido espiritual, como num coro musical cada um recebe a impressão dos sons pelo sentido da audição.
   Mas, assim como há raios sonoros harmônicos ou discordantes, também há pensamentos harmônicos ou discordantes. Se o conjunto for harmônico, a impressão é agradável; se discordante, a impressão será penosa. Ora, para isto, não é necessário que o pensamento seja formulado em palavras; a irradiação fluídica não deixa de existir, quer seja ou não expressa. Se todas forem benéficas, os assistentes experimentarão um verdadeiro bem-estar e se sentirão à vontade; mas se se misturarem alguns pensamentos maus, produzirão o efeito de uma corrente de ar gelado num meio tépido.
   Tal é a causa do sentimento de satisfação que se experimenta numa reunião simpática; aí reina uma espécie de atmosfera moral salubre, onde se respira à vontade; daí se sai reconfortado, porque aí nos impregnamos de eflúvios fluídicos salutares. Assim também se explicam a ansiedade e o mal-estar indefinível que se sente num meio antipático, onde os pensamentos malévolos provocam, a bem dizer, correntes fluídicas malsãs.
   A comunhão de pensamentos produz, pois, uma sorte de efeito físico que reage sobre o moral; só o Espiritismo poderia fazê-lo compreender. O homem o sente instintivamente, já que procura as reuniões onde sabe encontrar essa comunhão. Nessas reuniões homogêneas e simpáticas haure novas forças morais; poder-se-ia dizer que aí recupera as perdas fluídicas perdidas diariamente pela irradiação do pensamento, como recupera pelos alimentos as perdas do corpo material.
   A esses efeitos da comunhão de pensamentos, junta-se um outro que é a sua conseqüência natural, e que importa não perder de vista: é o poder que adquire o pensamento ou a vontade, pelo conjunto dos pensamentos ou vontades reunidos. Sendo a vontade uma força ativa, esta força é multiplicada pelo número de vontades idênticas, como a força muscular é multiplicada pelo número dos braços.
   Estabelecido este ponto, concebe-se que nas relações que se estabelecem entre os homens e os Espíritos, haja, numa reunião onde reine perfeita comunhão de pensamentos, uma força atrativa ou repulsiva, que nem sempre possui o indivíduo isolado. Se, até o presente, as reuniões muito numerosas são menos favoráveis, é pela dificuldade de obter uma homogeneidade perfeita de pensamentos, que se deve à imperfeição da natureza humana na Terra. Quanto mais numerosas as reuniões, mais aí se mesclam elementos heterogêneos, que paralisam a ação dos bons elementos, e que são como grãos de areia numa engrenagem. Não sucede assim nos mundos mais adiantados, e tal estado de coisas mudará na Terra à medida que os homens se tornarem melhores.
   Para os espíritas, a comunhão de pensamentos tem um resultado ainda mais especial. Temos visto o efeito desta comunhão de homem a homem; prova-nos o Espiritismo que ele não é menor dos homens aos Espíritos, e reciprocamente. Com efeito, se o pensamento coletivo adquire força pelo número, um conjunto de pensamentos idênticos, tendo o bem por objetivo, terá mais força para neutralizar a ação dos Espíritos maus; também vemos que a tática destes últimos é levar à divisão e ao isolamento. Sozinho, um homem pode sucumbir, ao passo que se sua vontade for corroborada por outras vontades poderá resistir, conforme o axioma: A união faz a força, axioma verdadeiro, tanto do ponto de vista moral, quanto do físico.
   Por outro lado, se a ação dos Espíritos malévolos pode ser paralisada por um pensamento comum, é evidente que a dos Espíritos bons será secundada; seus eflúvios fluídicos, não sendo detidos por correntes contrárias, espalhar-se-ão sobre os assistentes, precisamente porque todos os terão atraído pelo pensamento, não cada um em proveito pessoal, mas em benefício de todos, conforme a lei de caridade. Descerão sobre eles como
línguas de fogo, para nos servirmos de uma admirável imagem do Evangelho.
   Assim, pela comunhão de pensamentos os homens se assistem entre si e, ao mesmo tempo, assistem os Espíritos e são por estes assistidos. As relações entre os mundos visível e invisível não são mais individuais, mas coletivas e, por isto mesmo, mais poderosas em proveito das massas e dos indivíduos. Numa palavra, estabelecem a solidariedade, que é a base da fraternidade. Cada qual trabalha para todos, e não apenas para si; e trabalhando para todos, cada um aí encontra a sua parte. É o que o egoísmo não compreende.
   Graças ao Espiritismo, compreendemos, então, o poder e os efeitos do pensamento coletivo; explicamo-nos melhor o sentimento de bem-estar que se experimenta num meio
homogêneo e simpático; mas sabemos, igualmente, que se dá o mesmo com os Espíritos, porque eles também recebem os eflúvios de todos os pensamentos benevolentes que para eles se elevam, como uma nuvem de perfume. Os que são felizes experimentam maior alegria por esse concerto harmonioso; os que sofrem sentem maior alívio.
   Todas as reuniões religiosas, seja qual for o culto a que pertençam, são fundadas na comunhão de pensamentos; com efeito, é aí que podem e devem exercer a sua força, porque o objetivo deve ser a libertação do pensamento das amarras da matéria. Infelizmente, a maioria se afasta deste princípio à medida que a religião se torna uma questão de forma. Disto resulta que cada um, fazendo seu dever consistir na realização da forma, se julga quites com Deus e com os homens, desde que praticou uma fórmula. Resulta ainda que cada um vai aos lugares de reuniões religiosas com um pensamento pessoal, por sua própria conta e, na maioria das vezes, sem nenhum sentimento de confraternidade em relação aos outros assistentes; fica isolado em meio à multidão e só pensa no céu para si mesmo.
   Por certo não era assim que o entendia Jesus, ao dizer: “Quando duas ou mais pessoas estiverem reunidas em meu nome, aí estarei entre elas.” Reunidos em meu nome, isto é, com um pensamento comum; mas não se pode estar reunido em nome de Jesus sem assimilar os seus princípios, sua doutrina. Ora, qual é o princípio fundamental da doutrina de Jesus? A caridade em pensamentos, palavras e ações. Mentem os egoístas e os orgulhosos, quando se dizem reunidos em nome de Jesus, porque Jesus não os conhece por seus discípulos.
   Chocados por esses abusos e desvios, há pessoas que negam a utilidade das assembléias religiosas e, em conseqüência, a das edificações consagradas a tais assembléias. Em seu radicalismo, pensam que seria melhor construir asilos do que templos, uma vez que o templo de Deus está em toda parte e em toda parte pode ser adorado; que cada um pode orar em casa e a qualquer hora, enquanto os pobres, os doentes e os enfermos necessitam de lugar de refúgio.
   Mas, porque cometeram abusos, porque se afastaram do reto caminho, devemos concluir que não existe o reto caminho e que tudo quanto se abusa seja mau? Não, certamente. Falar assim é desconhecer a fonte e os benefícios da comunhão de pensamentos, que deve ser a essência das assembléias religiosas; é ignorar as causas que a provocam. Concebe-se que os materialistas professem semelhantes idéias, já que em tudo fazem abstração da
vida espiritual; mas da parte dos espiritualistas e, melhor ainda, dos espíritas, seria um contra-senso. O isolamento religioso, assim como o isolamento social, conduz ao egoísmo. Que alguns homens sejam bastante fortes por si mesmos, largamente dotados pelo coração, para que sua fé e caridade não necessitem ser revigoradas num foco comum, é possível; mas não é assim com as massas, por lhes faltar um estimulante, sem o qual poderiam se deixar levar pela indiferença. Além disso, qual o homem que poderá dizer-se bastante esclarecido para nada ter a aprender no tocante aos seus interesses futuros? bastante perfeito para abrir mão dos conselhos da vida presente? Será sempre capaz de instruir-se por si mesmo? Não; a maioria necessita de ensinamentos diretos em matéria de religião e de moral, como em matéria de ciência. Incontestavelmente, tais ensinos podem ser dados em toda parte, sob a abóbada do céu, como sob a de um templo; mas por que os
homens não haveriam de ter lugares especiais para as questões celestes, como os têm para as terrenas? Por que não teriam assembléias religiosas, como têm assembléias políticas, científicas e industriais? Aqui está uma bolsa onde se ganha sempre. Isto não impede as edificações em proveito dos infelizes. Dizemos, ademais, que haverá menos gente nos asilos, quando os homens compreenderem melhor seus interesses do céu.
   Se as assembléias religiosas – falo em geral, sem aludir a nenhum culto – muitas vezes se têm afastado de seu objetivo primitivo principal, que é a comunhão fraterna do pensamento; se o ensino ali ministrado nem sempre tem acompanhado o movimento progressivo da Humanidade, é que os homens não progridem todos ao mesmo tempo. O que não fazem num período, fazem em outro; à proporção que se esclarecem, vêem as lacunas existentes em suas instituições, e as preenchem; compreendem que o que era bom numa época, em relação ao grau de civilização, torna-se insuficiente numa etapa mais avançada, e restabelecem o nível. Sabemos que o Espiritismo é a grande alavanca do progresso em todas as coisas; marca uma era de renovação. Saibamos, pois, esperar, não exigindo de uma época mais do que ela pode dar. Como as plantas, é preciso que as idéias amadureçam, para que seus frutos sejam colhidos. Saibamos, além disso, fazer as necessárias concessões às épocas de transição, porque na Natureza nada se opera de maneira brusca e instantânea.
   Dissemos que o verdadeiro objetivo das assembléias religiosas deve ser a comunhão de pensamentos; é que, com efeito, a palavra religião quer dizer laço. Uma religião, em sua acepção larga e verdadeira, é um laço que religa os homens numa comunhão de sentimentos, de princípios e de crenças; consecutivamente, esse nome foi dado a esses mesmos princípios codificados e formulados em dogmas ou artigos de fé. É nesse sentido que se diz: a religião política; entretanto, mesmo nesta acepção, a palavra religião não é sinônima de opinião; implica uma idéia particular: a de fé conscienciosa; eis por que se diz também: a fé política. Ora, os homens podem filiar-se, por interesse, a um partido, sem ter fé nesse partido, e a prova é que o deixam sem escrúpulo, quando encontram seu interesse alhures, ao passo que aquele que o abraça por convicção é inabalável; persiste à custa dos maiores sacrifícios,e é a abnegação dos interesses pessoais a verdadeira pedra-de-toque da fé sincera. Todavia, se a renúncia a uma opinião, motivada pelo interesse, é um ato de desprezível covardia, é, não obstante,respeitável, quando fruto do reconhecimento do erro em que se estava; é, então, um ato de abnegação e de razão. Há mais coragem e grandeza em reconhecer abertamente que se enganou, do que persistir, por amor-próprio, no que se sabe ser falso, e para não sedar um desmentido a si próprio, o que acusa mais obstinação doque firmeza, mais orgulho do que razão, e mais fraqueza do que força. É mais ainda: é hipocrisia, porque se quer parecer o que não se é; além disso é uma ação má, porque é encorajar o erro por seu próprio exemplo.
   O laço estabelecido por uma religião, seja qual for o seu objetivo, é, pois, essencialmente moral, que liga os corações, que identifica os pensamentos, as aspirações, e não somente o fato de compromissos materiais, que se rompem à vontade, ou da realização de fórmulas que falam mais aos olhos do que ao espírito. O efeito desse laço moral é o de estabelecer entre os que ele une, como conseqüência da comunhão de vistas e de sentimentos, a fraternidade e a solidariedade, a indulgência e a benevolência mútuas. É nesse sentido que também se diz: a religião da amizade, a religião da família.
  Se é assim, perguntarão, então o Espiritismo é uma religião? Ora, sim, sem dúvida, senhores! No sentido filosófico, o Espiritismo é uma religião, e nós nos vangloriamos por isto, porque é a Doutrina que funda os vínculos da fraternidade e da comunhão de pensamentos, não sobre uma simples convenção, mas sobre bases mais sólidas: as próprias leis da Natureza.
   Por que, então, temos declarado que o Espiritismo não é uma religião? Em razão de não haver senão uma palavra para exprimir duas idéias diferentes, e que, na opinião geral, a palavra religião é inseparável da de culto; porque desperta exclusivamente uma idéia de forma, que o Espiritismo não tem. Se o Espiritismo se dissesse uma religião, o público não veria aí mais que uma nova edição, uma variante, se se quiser, dos princípios absolutos em matéria de fé; uma casta sacerdotal com seu cortejo de hierarquias, de cerimônias e de privilégios; não o separaria das idéias de misticismo e dos abusos contra os quais tantas vezes a opinião se levantou.
   Não tendo o Espiritismo nenhum dos caracteres de uma religião, na acepção usual da palavra, não podia nem devia enfeitar-se com um título sobre cujo valor inevitavelmente se teria equivocado. Eis por que simplesmente se diz: doutrina filosófica e moral.
  As reuniões espíritas podem, pois, ser feitas religiosamente, isto é, com o recolhimento e o respeito que comporta a natureza grave dos assuntos de que se ocupa; pode-se mesmo, na ocasião, aí fazer preces que, em vez de serem ditas em particular, são ditas em comum, sem que, por isto, sejam tomadas por assembléias religiosas. Não se pense que isto seja um jogo de palavras; a nuança é perfeitamente clara, e a aparente confusão não provém senão da falta de uma palavra para cada idéia.
   Qual é, pois, o laço que deve existir entre os espíritas? Eles não estão unidos entre si por nenhum contrato material, por nenhuma prática obrigatória. Qual o sentimento no qual se deve confundir todos os pensamentos? É um sentimento todo moral, todo espiritual, todo humanitário: o da caridade para com todos ou, em outras palavras: o amor do próximo, que compreende os vivos e os mortos, pois sabemos que os mortos sempre fazem parte da Humanidade.
  A caridade é a alma do Espiritismo; ela resume todos os deveres do homem para consigo mesmo e para com os seus semelhantes, razão por que se pode dizer que não há verdadeiro
espírita sem caridade.
  Mas a caridade é ainda uma dessas palavras de sentido múltiplo, cujo inteiro alcance deve ser bem compreendido; e se os Espíritos não cessam de pregá-la e defini-la, é que, provavelmente, reconhecem que isto ainda é necessário.
   O campo da caridade é muito vasto; compreende duas grandes divisões que, em falta de termos especiais, podem designar-se pelas expressões Caridade beneficente e caridade benevolente. Compreende-se facilmente a primeira, que é naturalmente proporcional aos recursos materiais de que se dispõe; mas a segunda está ao alcance de todos, do mais pobre como do mais rico. Se a beneficência é forçosamente limitada, nada além da vontade poderia estabelecer limites à benevolência.
   O que é preciso, então, para praticar a caridade benevolente? Amar ao próximo como a si mesmo. Ora, se se amar ao próximo tanto quanto a si, amar-se-o-á muito; agir-se-á para com outrem como se quereria que os outros agissem para conosco; não se quererá nem se fará mal a ninguém, porque não quereríamos que no-lo fizessem.
Amar ao próximo é, pois, abjurar todo sentimento de ódio, de animosidade, de rancor, de inveja, de ciúme, de vingança, numa palavra, todo desejo e todo pensamento de prejudicar; é perdoar aos inimigos e retribuir o mal com o bem; é ser indulgente para as imperfeições de seus semelhantes e não procurar o argueiro no olho do vizinho, quando não se vê a trave no seu; é esconder ou desculpar as faltas alheias, em vez de se comprazer em as pôr em relevo, por espírito de maledicência; é ainda não se fazer valer à custa dos outros; não procurar esmagar ninguém sob o peso de sua superioridade; não desprezar ninguém pelo orgulho. Eis a verdadeira caridade benevolente, a caridade prática, sem a qual a caridade é palavra vã; é a caridade do verdadeiro espírita, como do verdadeiro cristão; aquela sem a qual aquele que diz: Fora da caridade não há salvação, pronuncia sua própria condenação, tanto neste quanto no outro mundo.
   Quantas coisas haveria a dizer sobre este assunto! Que belas instruções não nos dão os Espíritos incessantemente! Não fosse o receio de alongar-me em demasia e de abusar de vossa paciência, senhores, seria fácil demonstrar que, em se colocando no ponto de vista do interesse pessoal, egoísta, se se quiser, porque nem todos os homens estão ainda maduros para uma completa abnegação, para fazer o bem unicamente por amor do bem, digo que seria fácil demonstrar que têm tudo a ganhar em agir deste modo, e tudo a perder agindo diversamente, mesmo em suas relações sociais; depois, o bem atrai o bem e a proteção dos Espíritos bons; o mal atrai o mal e abre a porta à malevolência dos maus. Mais cedo ou mais tarde o orgulhoso será castigado pela humilhação, o ambicioso pelas decepções, o egoísta pela ruína de suas esperanças, o hipócrita pela vergonha de ser desmascarado; aquele que abandona os Espíritos bons por estes é abandonado e, de queda em queda, finalmente se vê no fundo do abismo, ao passo que os Espíritos bons erguem e amparam aquele que, nas maiores provações, não deixa de se confiar à Providência e jamais se desvia do reto caminho; aquele, enfim, cujos secretos sentimentos não dissimulam nenhum pensamento oculto de vaidade ou de interesse pessoal. Assim, de um lado, ganho assegurado; do outro, perda certa; cada um, em virtude do seu livre-arbítrio, pode escolher a sorte que quer correr, mas não poderá queixar-se senão de si mesmo pelas conseqüências de sua escolha.
   Crer num Deus Todo-Poderoso, soberanamente justo e bom; crer na alma e em sua imortalidade; na preexistência da alma como única justificação do presente; na pluralidade das existências como meio de expiação, de reparação e de adiantamento intelectual e moral; na perfectibilidade dos seres mais imperfeitos; na felicidade crescente com a perfeição; na eqüitativa remuneração do bem e do mal, segundo o princípio: a cada um segundo as suas
obras; na igualdade da justiça para todos, sem exceções, favores nem privilégios para nenhuma criatura; na duração da expiação limitada à da imperfeição; no livre-arbítrio do homem, que lhe deixa sempre a escolha entre o bem e o mal; crer na continuidade das relações entre o mundo visível e o mundo invisível; na solidariedade que religa todos os seres passados, presentes e futuros, encarnados e desencarnados; considerar a vida terrestre
como transitória e uma das fases da vida do Espírito, que é eterno; aceitar corajosamente as provações, em vista de um futuro mais invejável que o presente; praticar a caridade em pensamentos, em palavras e obras na mais larga acepção do termo; esforçar-se cada dia para ser melhor que na véspera, extirpando toda imperfeição de sua alma; submeter todas as crenças ao controle do livre-exame e da razão, e nada aceitar pela fé cega; respeitar todas as crenças sinceras, por mais irracionais que nos pareçam, e não violentar a consciência de ninguém; ver, enfim, nas descobertas da Ciência, a revelação das leis da Natureza, que são as leis de Deus: eis o Credo, a religião do Espiritismo, religião que pode conciliar-se com todos os cultos, isto é, com todas as maneiras de adorar a Deus. É o laço que deve unir todos os espíritas numa santa comunhão de pensamentos, esperando que ligue todos os homens sob a bandeira da fraternidade universal.
  Com a fraternidade, filha da caridade, os homens viverão em paz e se pouparão males inumeráveis, que nascem da discórdia, por sua vez filha do orgulho, do egoísmo, da ambição, da inveja e de todas as imperfeições da Humanidade.
   O Espiritismo dá aos homens tudo o que é preciso para a sua felicidade aqui na Terra, porque lhes ensina a se contentarem com o que têm. Que os espíritas sejam, pois, os primeiros a aproveitar os benefícios que ele traz, e que inaugurem entre si o reino da harmonia, que resplandecerá nas gerações futuras.
  Os Espíritos que nos cercam aqui são inumeráveis, atraídos pelo objetivo que nos propusemos ao nos reunirmos, a fim de dar aos nossos pensamentos a força que nasce da união.
  Ofereçamos aos que nos são caros uma boa lembrança e o penhor de nossa afeição, encorajamentos e consolações aos que deles necessitem. Façamos de modo que cada um recolha a sua parte dos sentimentos de caridade benevolente, de que estivermos animados,
e que esta reunião dê os frutos que todos têm o direito de esperar.
    Allan Kardec

( Allan Kardec, Revista Espírita de dezembro de 1868)


(1) A primeira parte deste discurso é tirada de uma publicação anterior sobre a Comunhão de pensamentos, mas que era preciso relembrar, por causa de sua ligação com a idéia principal.

"Muitos dos pesquisadores renomados se omitem serem fiéis com as comprovações dos fatos espiristicos, com medo de perderem e comprometerem a reputação de sábios. O mesmo se vê quanto ao comportamento dos espíritas (salvo exceções muito raramente) que apresentam programas de rádio e televisão, se negam a sustentar ideias que chocam com ideais religiosas, tendo em vista não contrariar o artigo de fé dos patrocinadores e mantenedores das instituições que presidem ou dirigem, pois não sabem eles do comprometimento da sua consciência para com a verdade cósmica. Acham que vão burlar a lei divina?"

Jorge de Pinho

“É verdadeiramente inconciliável a doutrina da existência das colônias espirituais e a doutrina espírita, apesar da boa vontade de muitas pessoas em afirmar que o livro Nosso Lar (ditado pelo espírito André Luis) é um livro genuinamente espírita. Nosso Lar é uma refutação velada do Espiritismo, cheia de imagens poéticas e a mistura de  princípios espiritualistas  de diversas religiões, chegando ao ponto da recriação de um céu (colônias espirituais) e um inferno (umbrais ou outra zona inferior não relatada); carecendo do caráter científico e filosófico da doutrina espírita. Nosso Lar é um argumento desastrado a favor dos adversários do Espiritismo, não deve ser proibido de ser lido, mas  estudado comparando com as verdadeiras obras básicas do Espiritismo,  que André Luis não conheceu.”
Marcos A. B. Sousa

Para melhor esclarecimento sobre o assunto, aconselhamos ler o seguinte texto. *

Código penal da vida futura

O Espiritismo não vem, pois, com sua autoridade privada, formular um código de fantasia; a sua lei, no que respeita ao futuro da alma, deduzida das observações do fato, pode resumir-se nos seguintes pontos:
1º - A alma ou Espírito sofre na vida espiritual as conseqüências de todas as imperfeições que não conseguiu corrigir na vida corporal. O seu estado, feliz ou desgraçado, é inerente ao seu grau de pureza ou impureza.
2º A completa felicidade prende-se à perfeição, isto é, à purificação completa do Espírito. Toda imperfeição é, por sua vez, causa de sofrimento e de privação de gozo, do mesmo modo que toda perfeição adquirida é fonte de gozo e atenuante de sofrimentos.
3º - Não há uma única imperfeição da alma que não importe funestas e inevitáveis conseqüências, como não há uma só qualidade boa que não seja fonte de um gozo.
A soma das penas é, assim, proporcionada à soma das imperfeições, como a dos gozos à das qualidades.
A alma que tem dez imperfeições, por exemplo, sofre mais do que a que tem três ou quatro; e quando dessas dez imperfeições não lhe restar mais que metade ou um quarto, menos sofrerá.
De todo extintas, então a alma será perfeitamente feliz. Também na Terra, quem tem muitas moléstias, sofre mais do que quem tenha apenas uma ou nenhuma. Pela mesma razão, a alma que possui dez perfeições, tem mais gozos do que outra menos rica de boas qualidades.
4º - Em virtude da lei do progresso que dá a toda alma a possibilidade de adquirir o bem que lhe falta, como de despojar-se do que tem de mau, conforme o esforço e vontade próprios, temos que o futuro é aberto a todas as criaturas. Deus não repudia nenhum de seus filhos, antes recebe-os em seu seio à medida que atingem a perfeição, deixando a cada qual o mérito das suas obras.
5º - Dependendo o sofrimento da imperfeição, como o gozo da perfeição, a alma traz consigo o próprio castigo ou prêmio, onde quer que se encontre, sem necessidade de lugar circunscrito. O inferno está por toda parte em que haja almas sofredoras, e o céu igualmente onde houver almas felizes.
6º - O bem e o mal que fazemos decorrem das qualidades que possuímos. Não fazer o bem quando podemos e, portanto, o resultado de uma imperfeição. Se toda imperfeição é fonte de sofrimento, o Espírito deve sofrer não somente pelo mal que fez como pelo bem que deixou de fazer na vida terrestre.
7º - O Espírito sofre pelo mal que fez, de maneira que, sendo a sua atenção constantemente dirigida para as conseqüências desse mal, melhor compreende os seus inconvenientes e trata de corrigir-se.
8º - Sendo infinita a justiça de Deus, o bem e o mal são rigorosamente considerados, não havendo uma só ação, um só pensamento mau que não tenha conseqüências fatais, como não há  uma única ação meritória, um só bom movimento da alma que se perca, mesmo para os mais perversos, por isso que constituem tais ações um começo de progresso.
9º - Toda falta cometida, todo mal realizado é uma dívida contraída que deverá ser paga; se o não for em uma existência, sê-lo-á na seguinte ou seguintes, porque todas as existências são solidárias entre si. Aquele que se quita numa existência não terá necessidade de pagar segunda vez.
10º - O Espírito sofre, quer no mundo corporal, quer no espiritual, a conseqüência das suas imperfeições. As misérias, as vicissitudes padecidas na vida corpórea, são oriundas das nossas imperfeições, são expiações de faltas cometidas na presente ou em precedentes existências.
Pela natureza dos sofrimentos e vicissitudes da vida corpórea, pode julgar-se a natureza das faltas cometidas em anterior existência, e das imperfeições que as originaram.
11º - A expiação varia segundo a natureza e gravidade da falta, podendo, portanto, a mesma falta determinar expiações diversas, conforme as circunstâncias, atenuantes ou agravantes, em que for cometida.
12º - Não há regra absoluta nem uniforme quanto à natureza e duração do castigo: - a única lei geral é que toda falta terá punição, e terá recompensa todo ato meritório, segundo o seu valor.
13º - A duração do castigo depende da melhoria do Espírito culpado.
Nenhuma condenação por tempo determinado lhe é prescrita. O que Deus exige por termo de sofrimentos é um melhoramento sério, efetivo, sincero, de volta ao bem.
Deste modo o Espírito é sempre o árbitro da própria sorte, podendo prolongar os sofrimentos pela pertinácia no mal, ou suavizá-los e anulá-los pela prática do bem.
Uma condenação por tempo predeterminado teria o duplo inconveniente de continuar o martírio do Espírito renegado, ou de libertá-lo do sofrimento quando ainda permanecesse no mal. Ora, Deus, que é justo, só pune o mal enquanto existe, e deixa de o punir quando não existe mais (1); por outra, o mal moral, sendo por si mesmo causa de sofrimento, fará este durar enquanto subsistir aquele, ou diminuirá de intensidade à medida que ele decresça.
14º - Dependendo da melhoria do Espírito a duração do castigo, o culpado que jamais melhorasse sofreria sempre, e, para ele, a pena seria eterna.
15º - Uma condição inerente à inferioridade dos Espíritos é não lobrigarem o termo da provação, acreditando-a eterna, como eterno lhes parece deva ser um tal castigo. (2)
16º - O arrependimento, conquanto seja o primeiro passo para a regeneração, não basta por si só; são precisas a expiação e a reparação.
Arrependimento, expiação e reparação constituem, portanto, as três condições necessárias para apagar os traços de uma falta e suas conseqüências. O arrependimento suaviza os travos da expiação, abrindo pela esperança o caminho da reabilitação; só a reparação, contudo, pode anular o efeito destruindo-lhe a causa. Do contrário, o perdão seria uma graça, não uma anulação.
17º - O arrependimento pode dar-se por toda parte e em qualquer tempo; se for tarde, porém, o culpado sofre por mais tempo.
Até que os últimos vestígios da falta desapareçam, a expiação consiste nos sofrimentos físicos e morais que lhe são conseqüentes, seja na vida atual, seja na vida espiritual após a morte, ou ainda em nova existência corporal.
A reparação consiste em fazer o bem àqueles a quem se havia feito o mal.  Quem não repara os seus erros numa existência, por fraqueza ou má-vontade, achar-se-á numa existência ulterior em contacto com as mesmas pessoas que de si tiverem queixas, e em condições voluntariamente escolhidas, de modo a demonstrar-lhes reconhecimento e fazer-lhes tanto bem quanto mal lhes tenha feito. Nem todas as faltas acarretam prejuízo direto e efetivo; em tais casos a reparação se opera, fazendo-se o que se deveria fazer e foi descurado; cumprindo os deveres desprezados, as missões não preenchidas; praticando o bem em compensação ao mal praticado, isto é, tornando-se humilde se se tem sido orgulhoso, amável se se foi austero, caridoso se se tem sido egoísta, benigno se se tem sido perverso, laborioso se se tem sido ocioso, útil se se tem sido inútil, frugal se se tem sido intemperante, trocando em suma por bons os maus exemplos perpetrados. E desse modo progride o Espírito, aproveitando-se do próprio passado.(3)
18º - Os Espíritos imperfeitos são excluídos dos mundos felizes, cuja harmonia perturbariam. Ficam nos mundos inferiores a expiarem as suas faltas pelas tribulações da vida, e purificando-se das suas imperfeições até que mereçam a encarnação em mundos mais elevados, mais adiantados moral e fisicamente. Se se pode conceber um lugar circunscrito de castigo, tal lugar é, sem dúvida, nesses mundos de expiação, em torno dos quais pululam Espíritos imperfeitos, desencarnados à espera de novas existências que lhes permitam reparar o mal, auxiliando-os no progresso.
19º - Como o Espírito tem sempre o livre-arbítrio, o progresso por vezes se lhe torna lento, e tenaz a sua obstinação no mal. Nesse estado pode persistir anos e séculos, vindo por fim um momento em que a sua contumácia se modifica pelo sofrimento, e, a despeito da sua jactância, reconhece o poder superior que o domina.
Então, desde que se manifestam os primeiros vislumbres de arrependimento, Deus lhe faz entrever a esperança. Nem há Espírito incapaz de nunca progredir, votado a eterna inferioridade, o que seria a negação da lei de progresso, que providencialmente rege todas as criaturas.
20º - Quaisquer que sejam a inferioridade e perversidade dos Espíritos, Deus jamais os abandona. Todos têm seu anjo de guarda (guia) que por eles vela, na persuasão de suscitar-lhes bons pensamentos, desejos de progredir e, bem assim, de espreitar-lhes os movimentos da alma, com o que se esforçam por reparar em uma nova existência o mal que praticaram. Contudo, essa interferência do guia faz-se quase sempre ocultamente e de modo a não haver pressão, pois que o Espírito deve progredir por impulso da própria vontade, nunca por qualquer sujeição.
O bem e o mal são praticados em virtude do livre-arbítrio, e, conseguintemente, sem que o Espírito seja fatalmente impelido para um ou outro sentido.
Persistindo no mal, sofrerá as conseqüências por tanto tempo quanto durar a persistência, do mesmo modo que, dando um passo para o bem, sente imediatamente benéficos efeitos.

 

OBSERVAÇÃO - Erro seria supor que, por efeito da lei de progresso, a certeza de atingir cedo ou tarde a perfeição e a felicidade pode estimular a perseverança no mal, sob a condição do ulterior arrependimento: primeiro porque o Espírito inferior não se apercebe do termo da sua situação; e segundo porque, sendo ele o autor da própria infelicidade, acaba por compreender que de si depende o fazê-la cessar; que por tanto tempo quanto perseverar no mal será infeliz; finalmente, que o sofrimento será intérmino se ele próprio não lhe der fim. Seria, pois, um cálculo negativo, cujas conseqüências o Espírito seria o primeiro a reconhecer. Com o dogma das penas irremissíveis é que se verifica, precisamente, tal hipótese, visto como é para sempre interdita qualquer idéia de esperança, não tendo pois o homem interesse em converterse ao bem, para ele sem proveito.
Diante dessa lei, cai também a objeção extraída da presciência divina, pois Deus, criando uma alma, sabe efetivamente se, em virtude do seu livre-arbítrio, ela tomará a boa ou a má estrada; sabe que ela será punida se fizer o mal; mas sabe também que tal castigo temporário é um meio de fazê-la compreender o erro, cedo ou tarde entrando no bom caminho. Pela doutrina das penas eternas conclui-se que Deus sabe que essa alma falirá e, portanto, que está previamente condenada a torturas infinitas.

 

21º - A responsabilidade das faltas é toda pessoal, ninguém sofre por erros alheios, salvo se a eles deu origem, quer provocando-os pelo exemplo, quer não os impedindo quando poderia fazê-lo.
Assim, o suicida é sempre punido; mas aquele que por maldade impele outro a cometê-lo, esse sofre ainda maior pena.
22º - Conquanto infinita a diversidade de punições, algumas há inerentes à inferioridade dos Espíritos, e cujas conseqüências, salvo pormenores, são pouco mais ou menos idênticas.
A punição mais imediata, sobretudo entre os que se acham ligados à vida material em detrimento do progresso espiritual, faz-se sentir pela lentidão do desprendimento da alma; nas angústias que acompanham a morte e o despertar na outra vida, na conseqüente perturbação que pode dilatar-se por meses e anos.
Naqueles que, ao contrário, têm pura a consciência e na vida material já se acham identificados com a vida espiritual, o trespasse é rápido, sem abalos, quase nula a turbação de um pacífico despertar.
23º - Um fenômeno mui freqüente entre os Espíritos de certa inferioridade moral é o acreditarem-se ainda vivos, podendo esta ilusão prolongar-se por muitos anos, durante os quais eles experimentarão todas as necessidades, todos os tormentos e perplexidades da vida.
24º - Para o criminoso, a presença incessante das vitimas e das circunstâncias do crime é um suplício cruel.
25º - Espíritos há mergulhados em densa treva; outros se encontram em absoluto insulamento no Espaço, atormentados pela ignorância da própria posição, como da sorte que os aguarda. Os mais culpados padecem torturas muito mais pungentes por não lhes entreverem um termo.
Alguns são privados de ver os seres queridos, e todos, geralmente, passam com intensidade relativa pelos males, pelas dores e privações que a outrem ocasionaram. Esta situação perdura até que o desejo de reparação pelo arrependimento lhes traga a calma para entrever a possibilidade de, por eles mesmos, pôr um termo à sua situação.
26º - Para o orgulhoso relegado às classes inferiores. é suplício ver acima dele colocados, cheios de glória e bem-estar, os que na Terra desprezara. O hipócrita vê desvendados, penetrados e lidos por todo o mundo os seus mais secretos pensamentos, sem que os possa ocultar ou dissimular; o sátiro, na impotência de os saciar, tem na exaltação dos bestiais desejos o mais atroz tormento; vê o avaro o esbanjamento inevitável do seu tesouro, enquanto que o egoísta, desamparado de todos, sofre as conseqüências da sua atitude terrena; nem a sede nem a fome lhe serão mitigadas, nem amigas mãos se lhe estenderão às suas mãos súplices; e pois que em vida só de si cuidara, ninguém dele se compadecerá na morte.
27º - O único meio de evitar ou atenuar as conseqüências futuras de uma falta, está no repará-la, desfazendo-a no presente. Quanto mais nos demorarmos na reparação de uma falta, tanto mais penosas e rigorosas serão, no futuro, as suas conseqüências.
28º - A situação do Espírito, no mundo espiritual, não é outra senão a por si mesmo preparada na vida corpórea.
Mais tarde, outra encarnação se lhe faculta para novas provas de expiação e reparação, com maior ou menor proveito, dependentes do seu livre-arbítrio; e se ele não se corrige, terá sempre uma missão a recomeçar, sempre e sempre mais acerba, de sorte que pode dizer-se que aquele que muito sofre na Terra, muito tinha a expiar; e os que gozam uma felicidade aparente, em que pesem aos seus vícios e inutilidades, pagá-la-ão mui caro em ulterior existência. Nesse sentido foi que Jesus disse: - "Bem-aventurados os aflitos, porque serão consolados," (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V.)
29º - Certo, a misericórdia de Deus é infinita, mas não é cega. O culpado que ela atinge não fica exonerado, e, enquanto não houver satisfeito à justiça, sofre a consequência dos seus erros. Por infinita misericórdia, devemos ter que Deus não é inexorável, deixando sempre viável o caminho da redenção.
30º - Subordinadas ao arrependimento e reparação dependentes da vontade humana, as penas, por temporárias, constituem concomitantemente castigos e remédios auxiliares à cura do mal. Os Espíritos, em prova, não são, pois, quais galés por certo tempo condenados, mas como doentes de hospital sofrendo de moléstias resultantes da própria incúria, a compadecerem-se com meios curativos mais ou menos dolorosos que a moléstia reclama, esperando alta tanto mais pronta quanto mais estritamente observadas as prescrições do solícito médico assistente. Se os doentes, pelo próprio descuido de si mesmos, prolongam a enfermidade, o médico nada tem que ver com isso.
31º - As penas que o Espírito experimenta na vida espiritual ajuntam-se as da vida corpórea, que são conseqüentes às imperfeições do homem, às suas paixões, ao mau uso das suas faculdades e à expiação de presentes e passadas faltas. É na vida corpórea que o Espírito repara o mal de anteriores existências, pondo em prática resoluções tomadas na vida espiritual. Assim se explicam as misérias e vicissitudes mundanas que, à primeira vista, parecem não ter razão de ser. Justas são elas, no entanto, como espólio do passado - herança que serve à nossa romagem para a perfectibilidade. (4)
32º - Deus, diz-se, não daria prova maior de amor às suas criaturas, criando-as infalíveis e, por conseguinte, isentas dos vícios inerentes à imperfeição? Para tanto fora preciso que Ele criasse seres perfeitos, nada mais tendo a adquirir, quer em conhecimentos, quer em moralidade. Certo, porém, Deus poderia fazê-lo, e se o não fez é que em sua sabedoria quis que o progresso constituísse lei geral. Os homens são imperfeitos, e, como tais, sujeitos a vicissitudes mais ou menos penosas. E pois que o fato existe, devemos aceitá-lo.
Inferir dele que Deus não é bom nem justo, fora insensata revolta contra a lei.
injustiça haveria, sim, na criação de seres privilegiados, mais ou menos favorecidos, fruindo gozos que outros porventura não atingem senão pelo trabalho, ou que jamais pudessem atingir. Ao contrário, a justiça divina patenteia-se na igualdade absoluta que preside à criação dos Espíritos; todos têm o mesmo ponto de partida e nenhum se distingue em sua formação por melhor aquinhoado; nenhum cuja marcha progressiva se facilite por exceção: os que chegam ao fim, têm passado, como quaisquer outros, pelas fases de inferioridade e respectivas provas.
Isto posto, nada mais justo que a liberdade de ação a cada qual concedida. O caminho da felicidade a todos se abre amplo, como a todos as mesmas condições para atingi-la. A lei, gravada em todas as consciências, a todos é ensinada. Deus fez da felicidade o prêmio do trabalho e não do favoritismo, para que cada qual tivesse seu mérito.
Todos somos livres no trabalho do próprio progresso, e o que muito e depressa trabalha, mais cedo recebe a recompensa. O romeiro que se desgarra, ou em caminho perde tempo, retarda a marcha e não pode queixar-se senão de si mesmo.
O bem como o mal são voluntários e facultativos: livre, o homem não é fatalmente impelido para um nem para outro.
33º - Em que pese à diversidade de gêneros e graus de sofrimentos dos Espíritos imperfeitos, o código penal da vida futura pode resumir-se nestes três princípios:

1º - O sofrimento é inerente à imperfeição.
2º - Toda imperfeição, assim como toda falta dela promanada, traz consigo o próprio castigo nas conseqüências naturais e inevitáveis: assim, a moléstia pune os excessos e da ociosidade nasce o tédio, sem que haja mister de uma condenação especial para cada falta ou indivíduo.
3º - Podendo todo homem libertar-se das imperfeições por efeito da vontade, pode igualmente anular os males consecutivos e assegurar a futura felicidade.
A cada um segundo as suas obras, no Céu como na Terra: - tal é a lei da Justiça Divina.

( Allan Kardec. O céu e o inferno, Primeira parte, Cap. VI, Código penal da vida futura)

*O formato do texto foi adaptado para facilitar a compreensão em uma página da internet.

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(1) Vede cap. VI, nº 25, citação de Ezequiel.
(2) Perpétuo é sinônimo de eterno. Diz-se o limite das neves perpétuas; o eterno gelo dos pólos; também se diz o secretário perpétuo da Academia, o que não significa que o seja ad perpetuam, mas unicamente por tempo ilimitado. Eterno e perpétuo se empregam, pois, no sentido de indeterminado. Nesta acepção pode dizer-se que as penas são eternas, para exprimir que não têm duração limitada; eternas, portanto, para o Espírito que lhes não vê o termo.
(3) A necessidade da reparação é um princípio de rigorosa justiça. que se pode considerar verdadeira lei de reabilitação morai dos Espíritos. Entretanto, essa doutrina religião alguma ainda a proclamou. Algumas pessoas repelem-na porque acham mais cômodo o poder quitarem-se das más ações por um simples arrependimento, que não custa mais que palavras, por meio de algumas fórmulas; contudo, crendo-se, assim, quites, verão mais tarde se isso lhes bastava. Nós poderíamos perguntar se esse principio não é consagrado pela lei humana, e se a justiça divina pode ser inferior à dos homens? E mais, se essas leis se dariam por desafrontadas desde que o indivíduo que as transgredisse, por abuso de confiança, se limitasse a dizer que as respeita infinitamente.
Por que hão de vacilar tais pessoas perante uma obrigação que todo homem honesto se impõe como dever, segundo o grau de suas forças?
Quando esta perspectiva de reparação for inculcada na crença das massas, será um outro freio aos seus desmandos, e bem mais poderoso que o inferno e respectivas penas eternas, visto como interessa a vida em sua plena atualidade, podendo o homem compreender a procedência das circunstâncias que a tornam penosa, ou a sua verdadeira situação.
 (4) Vede 1ª' Parte, cap. V, "O purgatório", nº 3 e seguintes; e, após, 2ª Parte, cap.
VIII, "Expiações terrestres". Vede, também, O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. V,
"Bem-aventurados os aflitos".

Os romances mediúnicos

É um princípio espírita interpretar os romances como verdadeiramente são, ou seja, obras fruto da imaginação e improváveis.

A falta do estudo do Espiritismo no Brasil e consequente falta de entendimento do que ele realmente é faz com que os romances sejam interpretados como biografias ou autobiografias. Os exemplos de romances tidos erroneamente como espíritas não faltam, são considerados como obras primas da Doutrina Espìrita e trazem uma refutação do Espiritismo ocultadas através da pompa.

Para maiores esclarecimentos sobre o que é o romance, leia o seguinte artigo da Revista Espírita de dezembro de 1865:

"Romances Espíritas
ESPÍRITA, POR THÉOPHILE GAUTIER – A DUPLA
VISTA, POR ÉLIE BERTHET


Quem diz romance, diz obra de imaginação. É da própria essência do romance representar um assunto fictício, quanto aos fatos e personagens. Mas nesse mesmo gênero de produções, há regras de que o bom-senso não permite afastar-se e que, aliadas às qualidades do estilo, constituem o seu mérito. Se os detalhes não forem verdadeiros em si mesmos, ao menos devem ser verossímeis e de perfeito acordo com o meio onde se passa a ação.
Nos romances históricos, por exemplo, é de rigor a manutenção estrita da coloração local, e há anacronismos que não seriam toleráveis. O leitor deve poder transportar-se, pelo pensamento, aos tempos e lugares de que se fala e deles fazer uma idéia justa. Aí estava o grande talento de Walter Scott; lendo-o, encontramo-nos em plena Idade Média. Se ele tivesse atribuído os fatos e gestos de Francisco I a Luís XI, ou mesmo se tivesse feito falar este rei e os personagens de sua corte como no tempo da renascença, nem o mais belo estilo teria sido capaz de resgatar tais erros.
Acontece a mesma coisa nos romances de costumes. Seu mérito está na variedade dos quadros, porque seria o cúmulo do ridículo emprestar a um súdito espanhol os hábitos e o caráter de um inglês.
À primeira vista, o romance parece ser o gênero mais fácil. Consideramo-lo mais difícil que a História, embora menos sério. O historiador tem o quadro traçado pelos fatos, dos quais
não pode afastar-se uma linha; o romancista deve tudo criar; mas muitos pensam que basta um pouco de imaginação e de estilo para fazer um bom romance. É um grave erro; é preciso muita instrução.
Para fazer a sua Notre-Dame de Paris, Victor Hugo devia conhecer sua velha Paris arqueológica tão bem quanto a sua Paris moderna.
Pode-se fazer romances sobre o Espiritismo, como sobre todas as coisas. Dizemos mesmo que o Espiritismo, quando for conhecido e compreendido em toda a sua essência,
fornecerá às letras e às artes fontes inesgotáveis de poesias encantadoras. Mas por certo não será para os que só o vêem nas mesas girantes, nas cordas dos irmãos Davenport ou nas trapaças dos charlatães. Como nos romances históricos ou de costumes, é indispensável conhecer a fundo a tela sobre a qual se quer bordar, a fim de não se cometer disparates, que seriam outras tantas provas de ignorância; tal o músico que produz variações sobre um tema musical e é reconhecido pelas adições da fantasia. Aquele, pois, que não estudou a fundo o Espiritismo, em seu espírito, em suas tendências, em suas máximas, tanto quanto em suas formas materiais, é tão inapto para fazer um romance espírita de algum
valor, quanto o teria sido Lesage de fazer Gil Blas, se não tivesse conhecido a história e os costumes da Espanha.
Para isto é, pois, necessário ser espírita crente e fervoroso? De modo algum; basta ser verídico, e não se o pode ser sem saber. Para fazer um romance árabe por certo não é preciso ser muçulmano, mas é indispensável conhecer bastante a religião muçulmana, seu caráter, seus dogmas e suas práticas, bem como os costumes daí decorrentes, para não fazer agir e falar os africanos como cavalheiros franceses. Mas há os que julgam ser suficiente, para dar o cunho da raça, prodigalizar a torto e a direito os nomes de Alá, de Fátima e de Zulema, pois é mais ou menos tudo quanto sabem do islamismo. Numa palavra, não é preciso ser muçulmano, mas estar impregnado do espírito muçulmano, como para fazer uma obra espírita, ainda que fantástica, deve-se estar impregnado do espírito do Espiritismo. Enfim, é preciso que, lendo um romance espírita, os espíritas possam reconhecer-se, como os árabes deverão reconhecer-se num romance árabe e poder dizer: é isto. Mas nem uns, nem outros se reconhecerão se usarem disfarces; seu autor terá feito uma obra grotesca, exatamente como se um pintor pintasse mulheres francesas em costumes chineses.
Essas reflexões nos são sugeridas a propósito do romance-folhetim que neste momento o Sr. Théophile Gautier publica no grande Moniteur, sob o título de Espírita. Não temos a honra de conhecer pessoalmente o autor; não sabemos quais as suas convicções ou seus conhecimentos a respeito do Espiritismo; sua obra, que ainda está debutando, não permite ver a sua conclusão. Diremos apenas que se ele não encarasse o seu assunto senão sob um único ponto de vista – o das manifestações – desprezando o lado filosófico e moral da doutrina, não
corresponderia à idéia geral e complexa que o seu título abarca, muito embora o nome Espírita seja o de um de seus personagens.
Se os fatos que ele imagina, para a necessidade da ação, não se encerassem nos limites traçados pela experiência; se os apresentasse como se passando em condições inadmissíveis, sua obra faltaria com a verdade e faria supor que os espíritas crêem nas maravilhas dos contos das Mil e uma Noites. Se atribuísse aos espíritas práticas e crenças que estes desaprovam, ela não seria imparcial e, sob esse ponto de vista, não seria uma obra literária séria.
A Doutrina Espírita não é secreta, como a da maçonaria. Não tem mistérios para ninguém e se expõe à luz da publicidade; ela não é mística, nem abstrata, nem ambígua, mas clara e ao alcance de todos; nada tendo de alegórico, nem pode ser motivo de equívocos, nem de falsas interpretações; diz claramente o que admite e o que não admite; os fenômenos cuja possibilidade reconhece não são sobrenaturais nem maravilhosos, mas fundados
nas leis da Natureza, de sorte que nem faz milagres, nem prodígios. Aquele, pois, que não a conhece, ou que se engana quanto às suas tendências, é porque não quer dar-se ao trabalho de a conhecer.
Esta clareza e esta vulgarização dos princípios espíritas, que contam aderentes em todos os países e em todas as classes da sociedade, são a mais peremptória refutação às diatribes de seus adversários, porque não há uma só de suas alegações errôneas que não encontre
uma resposta categórica. O Espiritismo não pode senão ganhar em ser conhecido, e é o que trabalham, sem o querer, os que julgam aniquilá-lo por ataques desprovidos de qualquer argumento sério.
Os desvios de conveniência na linguagem produzem um efeito inteiramente contrário ao que se propõe; o público os aprecia, e não é em favor dos que se permitem a tanto; quanto mais violenta a agressão, tanto mais gente é levada a se informar da verdade, e isto até mesmo nas fileiras da literatura hostil. A calma dos espíritas diante desse motim; o sangue-frio e a dignidade que conservaram em suas respostas, fazem com a acrimônia dos antagonistas um
contraste que choca até os indiferentes e lançaram incertezas nas fileiras opostas, que hoje contam algumas deserções.
O romance espírita pode ser considerado como uma transição passageira entre a negação e a afirmação. É preciso coragem real para afrontar e desafiar o ridículo que se liga às idéias
novas, mas essa coragem vem com a convicção. Mais tarde – estamos convencidos – das fileiras de nossos adversários da imprensa sairão campeões sérios da doutrina.
Quando as tendências da obra do Sr. Théophile Gautier estiverem mais bem delineadas, far-lhe-emos nossa apreciação do ponto de vista da verdade espírita.
As reflexões acima naturalmente se aplicam às obras do mesmo gênero sobre o magnetismo e o sonambulismo.
Ultimamente a dupla vista forneceu ao Sr. Élie Berthet assunto para um romance muito interessante, publicado pelo Siècle, e que, ao talento de escritor, alia o mérito da exatidão. Incontestavelmente o autor deve ter feito um estudo sério dessa faculdade; para descrevêla
como o faz, é preciso ter visto e observado. Não obstante, poderse- ia censurar-lhe um certo exagero na extensão que dá em alguns casos. Outro erro, em nossa opinião, é apresentá-la como uma doença. Ora, uma faculdade natural, seja ela qual for, pode coincidir com um estado patológico, mas, por si só, não é uma doença, e a prova disto é que uma porção de pessoas dotadas da dupla vista no mais alto grau, gozam de perfeita saúde. A heroína é aqui uma jovem tuberculosa e cataléptica: esse o seu verdadeiro mal. A faculdade de que goza causou desgraça pelos enganos que se seguiram, razão por que deplora o dom funesto que recebeu.
Mas esse dom só foi funesto por ignorância, inexperiência e imprudência dos que dele se serviram desastradamente. Deste ponto de vista não há uma só de nossas faculdades que não possa tornar-se um presente funesto, pelo mau uso ou pelas falsas aplicações que dela possam fazer.
Feitas estas ressalvas, diremos que o fenômeno é descrito com perfeição. É bem essa visão da alma desprendida, que não conhece distâncias, que penetra a matéria como um raio de luz penetra os corpos transparentes, e que é a prova patente e visível da existência e da independência do princípio espiritual; é bem mais o quadro da estranha transfiguração que se opera no êxtase, dessa prodigiosa lucidez que confunde por sua precisão em certos casos, e que desorienta pelas ilusões que às vezes produz. Nos atores do drama, é a pintura mais verdadeira dos sentimentos que agitam os crentes, os incrédulos, os indecisos e os aturdidos. Há um médico que flutua entre o cepticismo e a crença, mas, como homem de bom-senso, que não crê que a Ciência tenha dito a última palavra, observa, estuda e constata os fatos. Sua conduta durante as crises da jovem atesta sua prudência. Há também o descrédito dos
exploradores, que aí são justamente fustigados.
O autor teria feito uma obra incompleta se tivesse negligenciado o lado moral da questão. Seu objetivo não é excitar a curiosidade com fatos extraordinários, mas lhes deduzir as conseqüências úteis e práticas. Entre outros, um episódio prova que ele compreendeu perfeitamente esta parte de seu programa.
A jovem vidente descobre num subterrâneo importantes papéis, que devem pôr termo a um grave processo de família. Descreve os lugares e as circunstâncias com minúcias. As escavações, feitas conforme suas indicações, provam que viu muito bem. Encontram os papéis e o processo é anulado. Notemos de passagem que ela fez essa descoberta espontaneamente, atraída pelo interesse que liga à família e não por solicitações. O título principal consistia de uma carta em estilo antigo, da qual faz a leitura textual e completa com tanta facilidade quanto se a tivesse sob os olhos. É aí, sobretudo, que sua faculdade nos parece um pouco
exagerada.
Mais adiante ela vê outro subterrâneo, onde estão imensos tesouros, cuja origem explica. Para lá chegar é preciso atravessar outro jazigo, cheio de restos humanos, restos mortais de numerosas vítimas dos tempos do feudalismo. Até aí, nada que não seja provável; o que não o é absolutamente, é que as almas dessas vítimas aí tenham ficado encerradas há séculos e possam erguer-se ameaçadoras ante os que viessem perturbar seu sombrio repouso, à busca de um tesouro; aí está o fantástico. Se fossem os carrascos, nada de surpreendente. Sabemos, por numerosos exemplos, que tal é, muitas vezes, o castigo temporário dos culpados condenados a
ficar no mesmo lugar e em presença de seus crimes, até que, tocados pelo arrependimento, elevem o pensamento a Deus, para implorar sua misericórdia. Mas aqui são as vítimas inocentes que seriam punidas, o que não é racional.
O proprietário do castelo, velho avarento, atraído pela descoberta dos papéis, quer continuar as escavações. Elas são difíceis, perigosas para os operários, mas nada o detém. Em vão a
vidente lhe suplica que renuncie; prediz que, se persistir, sobrevirá desgraça. Aliás, acrescenta ela, não o conseguireis. – Então esses tesouros não existem? diz o avarento. – Existem tais quais os descrevi, garanto; mas, ainda uma vez, lá não chegareis. – E quem mo impedirá? – As almas que estão no jazigo que é preciso atravessar.
O velho avarento, céptico endurecido, admitia perfeitamente a vista extracorpórea da moça, mesmo sem compreender bem, porque acabava de ter uma prova à sua custa: a dos papéis encontrados, embora não correspondessem às suas pretensões no processo; mas acreditava mais no dinheiro que nas forças invisíveis. E continua: Com que direito se oporão? Esses tesouros me pertencem, já que estão em minha propriedade. – Não; um dia serão facilmente descobertos por quem deve desfrutálos; mas não é a vós que estão destinados. Por isso não o
conseguireis. Repito: se persistirdes, sobrevirá uma desgraça.
Eis o lado essencialmente moral, instrutivo e verdadeiro do relato. Essas palavras parecem tomadas de O Livro dos Médiuns, no artigo sobre o concurso dos Espíritos para a
descoberta dos tesouros: “Se a Providência destina tesouros ocultos a alguém, esse os achará naturalmente; de outra forma, não.” (Capítulo XXVI, no 295.) Com efeito, não há exemplo de que Espíritos ou sonâmbulos tenham facilitado tais descobertas, assim
como a recuperação de heranças, e todos os que, embalados por
esta esperança, fizeram semelhantes tentativas, perderam tempo e dinheiro. Tristes e cruéis decepções aguardam os que firmam a esperança de enriquecimento por semelhantes meios. Não é missão dos Espíritos favorecer a cupidez e nos proporcionar riqueza sem trabalho, o que não seria justo nem moral. Sem dúvida o sonâmbulo lúcido vê, mas o que lhe é permitido ver, e os Espíritos podem, conforme as circunstâncias e por ordem superior, obliterar a sua lucidez, ou interpor obstáculos à realização das coisas que não estão nos desígnios da Providência. No caso de que se trata, foi permitido encontrar os papéis, que deviam pôr um termo às dissensões de família, e não para achar tesouros, que só serviriam para a satisfação da cupidez. Eis por que o velho avarento pereceu, vítima de sua obstinação.
As terríveis peripécias do drama imaginado pelo Sr. Élie Berthet não são tão fantásticas quanto se poderia imaginar.
Lembram as mais reais, sofridas pelo Sr. Borreau, de Niort, em pesquisas da mesma natureza, e cujo emocionante relato se acha em sua brochura, intitulada: Como e por que me tornei espírita. (Vide nosso relato na Revista de dezembro de 1864.)
Uma outra instrução, não menos importante, ressalta do livro do Sr. Élie Berthet. A moça viu coisas positivas, e em outra circunstância grave engana-se, atribuindo um crime a uma pessoa
inocente. Que conseqüência daí tira o autor? É a negação da faculdade? Não, pois que, ao lado disto, ele a prova e chega a esta conclusão, justificada pela experiência: a mais comprovada lucidez não é infalível e nela não se poderia confiar de maneira absoluta, sem
controle. A visão, pela alma, de coisas que o corpo não pode ver, prova a existência da alma; já é um resultado muito importante. Mas ela não é dada para a satisfação das paixões humanas.
Por que, então, a alma, em seu estado de emancipação, não vê sempre certo? É que, sendo o homem ainda imperfeito, sua alma não pode gozar das prerrogativas da perfeição. Conquanto isolada, ela participa das influências materiais, até sua completa depuração. Sendo assim com as almas desencarnadas ou Espíritos, com mais forte razão com as que ainda estão ligadas à vida corporal. Eis o que faz conhecer o Espiritismo aos que se dão ao trabalho de o estudar.
"

A educação dos país podem estimular os vícios dos filhos

A educação em sua verdadeira acepção não pode ser exclusivamente intelectual. Existe hábitos e crenças que o espírito reencarnado trás e que devem ser combatidas pelos pais. Infelizmente muitos pais entendem seus filhos como futuras carniças, jovens seres sem passado e destinados a fazer de tudo para gozarem a vida intensamente, esta visão tem por consequência o estimulo de espíritos reencarnados em permancerem com os mesmos vícios que os fazem infelizes em um mundo de prova e expiações. Quantos país se creem criadores dos filhos por terem a oportunidade de forncerem material genético para a formação do corpo passageiro de um espírito que vem a reencarnar! Quantos sofrimentos decorrente da visão materialista da origem, das relações que devem ser estabelecidas entre espíritos que reencarnam em uma mesma família consaguínea! Quanto é decadente a visão materialista da familia e da obrigação de pais e mães! Quanto é descadente a visão materilista da educação.

A doutrina espírita fornece elementos filosóficos, científicos e morais para a compreenssão do objetivo e dos princípios que o ser necessita aprender para poder lutar para exercer de forma digna a posição passageira de pai, de mãe e de filho. A Doutrina Espírita fundamenta através de fatos as bases da verdeira educação, que tem princípios fundamentados no desenvolvimento do ser espiritual ao longo de suas diversas reencarnações. Todos poderão contribuir para o progreso dos outros, mas é cada um de nós que deve fazer o esforço necessário para progredir mais e mais. O ser não é um condenado a ser o que o meio determina que ele deve ser, mas é um espírito imortal que modifica o meio em que existe e reencarna no meio compatível com a natureza dele. Quando os espíritos reencarnados estudarem os princípios universais do desenvolvimento do espírito conseguirão cada vez mais deixar de estimular outros espíritos reencarnados ou não a ilusões a satisfação dos apetites grosseiros, em resumo, a valorização do que é passageiro e desvalozação do que é para a eternidade.

Convidamos o leitor para fazer a leitura do artigo "Primeiras Lições de Moral da Infância", que está na Revista Espírita de fevereiro de 1864 e a assistir o vídeo A infância:

 

"Primeiras Lições de Moral da Infância


De todas as chagas morais da sociedade, o egoísmo parece a mais difícil de extirpar. Com efeito, ela o é tanto mais quanto mais alimentada pelos mesmos hábitos da educação. Temse
a impressão que, desde o berço, a gente se esforça para excitar certas paixões que, mais tarde, se tornam uma segunda natureza, e nos admiramos dos vícios da sociedade, quando as crianças os sugam com o leite. Eis um exemplo que, como cada um pode julgar, pertence mais à regra do que à exceção.
Numa família de nosso conhecimento há uma menina de quatro a cinco anos, de rara inteligência, mas que tem os pequenos defeitos das crianças mimadas, ou seja, é um pouco caprichosa, chorona, teimosa, e nem sempre agradece quando lhe dão alguma coisa, o que os pais levam a peito corrigir, porque, fora desses pequenos defeitos, segundo eles, ela tem um coração de ouro, expressão consagrada. Vejamos como eles agem para lhe tirar essas
pequenas manchas e conservar o ouro em sua pureza.
Certo dia trouxeram um doce à criança e, como de costume, lhe disseram: “Tu o comerás, se fores ajuizada.” Primeira lição de gulodice. Quantas vezes, à mesa, não acontece dizerem a
uma criança que não comerá tal guloseima se chorar. Dizem: “Faze isto ou faze aquilo e terás creme”, ou qualquer outra coisa que lhe apeteça; e a criança é constrangida, não pela razão, mas tendo em vista a satisfação de um desejo sensual que incentivam. É ainda muito pior quando lhe dizem, o que não é menos freqüente, que darão a sua parte a uma outra. Aqui já não é só a gulodice que está em jogo, é a inveja. A criança fará o que lhe pedem, não só para ter,
mas para que a outra não tenha. Querem lhe dar uma lição de generosidade? Então dizem: “Dá esta fruta ou este brinquedo a alguém.” Se ela recusa, não deixam de acrescentar, para nela
estimular um bom sentimento: “Eu te darei um outro.” Assim, a criança só se decide a ser generosa quando está certa de nada perder.
Um dia testemunhamos um fato bem característico neste gênero. Era uma criança de cerca de dois anos e meio, a quem tinham feito semelhante ameaça, acrescentando: “Nós o daremos ao irmãozinho e tu não comerás.” E, para tornar a lição mais sensível, puseram a porção no prato deste; mas o irmãozinho, levando a coisa a sério, comeu a porção. À vista disto, o outro ficou
vermelho e não era preciso ser pai ou mãe para ver o lampejo de cólera e de ódio que brotou de seus olhos. A semente estava lançada; poderia produzir bom grão?
Voltemos à menina, da qual falamos. Como não levou em consideração a ameaça, sabendo por experiência que raramente a executavam, desta vez os pais foram mais firmes, pois compreenderam a necessidade de dominar esse pequeno caráter, e não esperar que a idade lhe tivesse feito adquirir um mau hábito.
Diziam que é preciso formar as crianças desde cedo, máxima muita sábia e, para a pôr em prática, eis o que fizeram: “Eu te prometo – disse a mãe – que se não obedeceres, amanhã cedo darei o teu bolo à primeira criança pobre que passar.” Dito e feito. Desta vez não cederam e lhe deram uma boa lição. Assim, no dia seguinte de manhã, tendo sido avistada uma pequena mendiga na rua, fizeram na entrar, obrigaram a filha a toma-la pela mão e ela mesma lhe dar o seu bolo. Acerca disto elogiaram a sua docilidade. Moralidade: a filha disse: Se eu soubesse disto teria tido pressa em comer o bolo ontem.” E todos aplaudiram esta resposta espirituosa. Com efeito, a criança tinha recebido uma forte lição, mas lição de puro egoísmo,
da qual não deixará de aproveitar outra vez, pois agora sabe o que custa a generosidade forçada. Resta saber que frutos dará mais tarde esta semente, quando, com mais idade, a criança fizer aplicação dessa moral em coisas mais sérias que um bolo. Sabem se
todos os pensamentos que este único fato pode ter feito germinar nessa cabecinha? Depois disto, como querem que uma criança não seja egoísta quando, em vez de nela despertar o prazer de dar e de lhe representar a felicidade de quem recebe, impõe-lhe um sacrifício como punição? Não é inspirar aversão ao ato de dar e àqueles que têm necessidade? Um outro hábito, igualmente freqüente, é o de castigar a criança mandando-a comer na cozinha com os empregados domésticos. A punição está menos na exclusão da mesa do que na humilhação de ir para a mesa dos criados. Assim se acha inoculado, desde a mais tenra idade, o vírus da sensualidade, do egoísmo, do orgulho, do desprezo aos inferiores, das paixões, numa palavra, que são, e com razão, consideradas como as chagas da Humanidade. É preciso ser dotado de uma natureza excepcionalmente boa para resistir a tais influências, produzidas na idade mais impressionável e onde não podem encontrar o contrapeso da vontade, nem da experiência. Assim, por pouco que aí se ache o germe das más paixões, o que é o caso mais comum, considerando-se a natureza da maioria dos Espíritos que encarnam na Terra, não pode senão desenvolver-se sob tais influências, ao passo que seria preciso espreitar-lhe os menores traços para os abafar.
Sem dúvida a falta é dos pais; mas, é bom dizer, muitas vezes estes pecam mais por ignorância do que por má-vontade. Em muitos há, incontestavelmente, uma censurável despreocupação, mas em outros a intenção é boa, é o remédio que nada vale, ou que é mal aplicado. Sendo os primeiros médicos da alma de seus filhos, deveriam ser instruídos, não só de seus deveres, mas dos meios de os cumprir. Não basta ao médico saber que deve procurar curar: é preciso saber como proceder. Ora, para os pais, onde os meios de instruir-se nesta parte tão importante de sua tarefa? Hoje se dá muita instrução à mulher, submetem-na a exames rigorosos, mas jamais exigiram de uma mãe que ela soubesse como agir para formar o moral de seu filho. Ensinam-lhe receitas caseiras, mas não a iniciam nos mil e um segredos de governar os jovens corações.
Assim, os pais são abandonados, sem guia, à sua iniciativa, razão por que tantas vezes enveredam por falsa rota; também recolhem, nas imperfeições dos filhos já crescidos, o fruto amargo de sua inexperiência ou de uma ternura mal entendida, e a sociedade inteira lhes recebe o contragolpe.
Considerando-se que o egoísmo e o orgulho são a fonte da maioria das misérias humanas, enquanto reinarem na Terra não se pode esperar nem a paz, nem a caridade, nem a fraternidade. É preciso, pois, atacá-los no estado de embrião, sem esperar que
fiquem vivazes.
Pode o Espiritismo remediar esse mal? Sem nenhuma dúvida; e não vacilamos em dizer que é o único bastante poderoso para o fazer cessar, a saber: por um novo ponto de vista sob o qual
faz encarar a missão e a responsabilidade dos pais; fazendo conhecer a fonte das qualidades inatas, boas ou más; mostrando a ação que se pode exercer sobre os Espíritos encarnados e desencarnados; dando a fé inabalável que sanciona os deveres; enfim, moralizando os próprios pais. Ele já prova sua eficácia pela maneira mais racional pela qual são educadas as crianças nas famílias verdadeiramente espíritas. Os novos horizontes que abre o Espiritismo fazem ver as coisas de modo bem diverso; sendo o seu objetivo o progresso moral da Humanidade, forçosamente deverá projetar luz sobre a grave questão da educação moral, fonte
primeira da moralização das massas. Um dia compreenderão que este ramo da educação tem seus princípios, suas regras, como a educação intelectual, numa palavra, que é uma verdadeira ciência; talvez um dia, também, haverão de impor a toda mãe de família a obrigação de possuir esses conhecimentos, como impõem ao advogado a de conhecer o Direito."

Colônias Espírituais e o Espiritismo

O Espiritismo é uma ciência filosófica com consequência morais. Não é uma doutrina de fácil compreenssão, nem uma doutrina que o indivíduo pode aprender a brincar. O Espiritismo tem seu metódo científico cuja eficácia a própria experiência comprova a cada momento. É uma doutrina escrita e cujos princípios podem ser avaliados, dicutidos ou rejeitados. O fato de ter um corpo de doutrina escrita isto não impede que seja atribuído ao Espiritismo princípios que ele não adota, não ensina e não apoia. Um desses princípios é o da existência das colônias espirituais, umbrais e vales dos suicidas. Princípios estes que são acompanhados da ideia da existência de diferentes sexos para os espíritos e de locais prefixados para a punição das almas. É justicável que alguém que não tenha estudado os livros básicos do Espiritismo atribua a ele o que não adota, não aconselha e divulga o contrário, mas para uma pessoa que se diz espírita é mais do que estranho!

A doutrina das colônias espirituais, umbrais, vale dos suicidas, enfermarias femininas e masculinas no mundo dos espíritos e almas gemeas já foi antecipamente refutada com lógica irrefutável pelos livros da codificação, entretando os defensores de tais doutrinas atribuem teimosamente o carater espírita não se sabe baseado em que documento histórico ("O Livro dos Espíritos", "O que é o Espiritismo", "O Livro dos Médiuns", "O Evangelho Segundo o Espiritismo", "O Céu e o Inferno", "A Gênese", "Obras Póstumas" e a "Revista Espírita" de 1858 a 1869). Leitor, é mais que evidente a contradição entre Espiritismo e a doutrina das colônias espirituais e seus aparatos foclóricos, é patente, é um fato.

A conselhamos aos leitores não deixarem de ler os livros que defendem a existência de cidades que ficam acima da psicofesra terreste, muito pelo contrário, aqui existe a defesa da comparação e analise dessa doutrina com o que diz a Doutrina Espírita para saberem se é realmente um princípio espírita. Mais do que isto, é necessário se prepararem de forma adequada para mediante a pesquisa dos fatos investigar se a doutrina espírita tem fundamentação científica ou não, se existe ou não mundo espiritual e em que condições ele existe e quais o seus habitantes. É todo um estudo científico a fazer, que não poderá ser desprezado nenhuma obra firmativa ou negativa. Isto é que Espiritismo, ciência. Por enquanto é necessário não fugir do objetivo principal desta busca de esclarecimento.

A crença da existência de espíritos homens e mulheres, com enfermarias para cada sexo nega o que está escrito nos livros da codicação. Este fato pode ser contatado com a leitura do seguinte artigo contido na Revista Espírita de janeiro de 1866, denominado "As mulheres têm Alma?". Eis o artigo na integra e a negação do sexo dos espíritos:


"As Mulheres têm Alma?


As mulheres têm alma? Sabe-se que a coisa nem sempre
foi tida por certa, pois, ao que se diz, foi posta em deliberação num
concílio. A negação ainda é um princípio de fé em certos povos.
Sabe-se a que grau de aviltamento essa crença as reduziu na maior
parte dos países do Oriente. Embora hoje, nos povos civilizados, a
questão esteja resolvida em seu favor, o preconceito de sua
inferioridade moral perpetuou-se a tal ponto que um escritor do
século passado, cujo nome não nos vem à memória, assim definia
a mulher: “Instrumento de prazer do homem”, definição mais
muçulmana que cristã. Desse preconceito nasceu a sua
inferioridade legal, ainda não apagada de nossos códigos. Durante
muito tempo elas aceitaram essa submissão como uma coisa
natural, tão poderosa é a força do hábito. Dá-se o mesmo com os
que, votados à servidão de pai a filho, acabam por se julgar de
natureza diversa da dos seus senhores.
Não obstante, o progresso das luzes resgatou a mulher
na opinião. Muitas vezes ela se afirmou pela inteligência e pelo
gênio e a lei, conquanto ainda a considerasse menor, pouco a pouco
afrouxou os laços da tutela. Pode-se considerá-la como emancipada
moralmente, se não o é legalmente. É a este último resultado que
ela chegará um dia, pela força das coisas.
Ultimamente lia-se nos jornais que uma jovem
senhorita de vinte anos acabava de defender o bacharelado com
pleno sucesso perante a faculdade de Montpellier. Dizia-se que era
o quarto diploma concedido a uma mulher. Ainda não faz muito
tempo foi agitada a questão de saber se o grau de bacharel podia
ser conferido a uma mulher. Embora a alguns isto parecesse uma
monstruosa anomalia, reconheceu-se que os regulamentos sobre a
matéria não faziam menção às mulheres e, assim, elas não se
achavam excluídas legalmente. Depois de terem reconhecido que
elas tinham alma, lhes reconheceram o direito à conquista dos
graus da Ciência, o que já é alguma coisa. Mas a sua libertação
parcial é apenas resultado do desenvolvimento da urbanidade, do
abrandamento dos costumes ou, se quiserem, de um sentimento
mais exato da justiça; é uma espécie de concessão que lhes fazem e,
é preciso que se diga, que lhes regateiam o mais possível.
Hoje, pôr em dúvida a alma da mulher seria ridículo;
mas outra questão muito séria sob outro aspecto, aqui se apresenta,
e cuja solução só pode ser estabelecida se a igualdade de posição
social entre o homem e mulher for um direito natural, ou uma
concessão feita pelo homem. Notemos, de passagem, que se esta
igualdade não passar de uma concessão do homem por
condescendência, aquilo que ele der hoje pode ser retirado amanhã,
e que tendo para si a força material, salvo algumas exceções
individuais, em massa ele sempre levará vantagem. Ao passo que se
essa igualdade estiver na Natureza, seu reconhecimento será o
resultado do progresso e, uma vez reconhecido, será imprescritível.
Teria Deus criado almas masculinas e femininas,
fazendo estas inferiores àquelas? Eis toda a questão. Se assim fosse,
a inferioridade da mulher estaria nos decretos divinos e nenhuma
lei humana poderá transgredi-los. Tê-las-ia, ao contrário, criado
iguais e semelhantes? Nesse caso as desigualdades, baseadas na
ignorância e na força bruta, desaparecerão com o progresso e o
reinado da justiça.
Entregue a si mesmo, o homem não podia estabelecer
a respeito senão hipóteses mais ou menos racionais, mas sempre
questionáveis. Nada no mundo poderia dar-lhe a prova material do
erro ou da verdade de suas opiniões. Para se esclarecer, seria
preciso remontar à fonte, pesquisar nos arcanos do mundo
extracorpóreo, que não conhece. Estava reservado ao Espiritismo
resolver a questão, não mais pelos raciocínios, mas pelos fatos, quer
pelas revelações de além-túmulo, quer pelo estudo que diariamente
pode fazer sobre o estado das almas depois da morte. E, coisa
capital, esses estudos não são o fato nem de um só homem, nem
das revelações de um só Espírito, mas o produto de inúmeras
observações idênticas, feitas todos os dias por milhares de
indivíduos, em todos os países, e que assim receberam a sanção
poderosa do controle universal, sobre o qual se apóiam todas as
doutrinas da ciência espírita. Ora, eis o que resulta dessas
observações.
As almas ou Espíritos não têm sexo. As afeições que os
unem nada têm de carnal e, por isto mesmo, são mais duráveis,
porque fundadas numa simpatia real e não são subordinadas às
vicissitudes da matéria.
As almas se encarnam, isto é, revestem temporariamente
um envoltório carnal, para elas semelhante a uma pesada
vestimenta, de que a morte as desembaraça. Esse invólucro
material, pondo-as em contato com o mundo material, nesse estado
elas concorrem ao progresso material do mundo que habitam; a
atividade a que são obrigadas a desenvolver, seja para a conservação
da vida, seja para alcançarem o bem-estar, auxilia-lhes o avanço
intelectual e moral. A cada encarnação a alma chega mais
desenvolvida; traz novas idéias e os conhecimentos adquiridos nas
existências anteriores. Assim se efetua o progresso dos povos; os
homens civilizados de hoje são os mesmos que viveram na Idade
Média e nos tempos de barbárie, e que progrediram; os que
viverem nos séculos futuros serão os de hoje, porém mais
avançados, intelectual e moralmente.
Os sexos só existem no organismo; são necessários à
reprodução dos seres materiais. Mas os Espíritos, sendo criação de
Deus, não se reproduzem uns pelos outros, razão pela qual os sexos
seriam inúteis no mundo espiritual.
Os Espíritos progridem pelos trabalhos que realizam e
pelas provas que devem sofrer, como o operário se aperfeiçoa em
sua arte pelo trabalho que faz. Essas provas e esses trabalhos
variam conforme sua posição social. Devendo os Espíritos
progredir em tudo e adquirir todos os conhecimentos, cada um é
chamado a concorrer aos diversos trabalhos e a sujeitar-se aos
diferentes gêneros de provas. É por isso que, alternadamente,
nascem ricos ou pobres, senhores ou servos, operários do
pensamento ou da matéria.
Assim se acha fundado, sobre as próprias leis da
Natureza, o princípio da igualdade, pois o grande da véspera pode
ser o pequeno do dia seguinte e reciprocamente. Desse princípio
decorre o da fraternidade, visto que, em nossas relações sociais,
reencontramos antigos conhecimentos, e no infeliz que nos
estende a mão pode encontrar-se um parente ou um amigo.
É com o mesmo objetivo que os Espíritos se encarnam
nos diferentes sexos; aquele que foi homem poderá renascer
mulher, e aquele que foi mulher poderá nascer homem, a fim de
realizar os deveres de cada uma dessas posições, e sofrer-lhes as
provas.
A Natureza fez o sexo feminino mais fraco que o outro,
porque os deveres que lhe incumbem não exigem igual força
muscular e seriam até incompatíveis com a rudeza masculina. Nela
a delicadeza das formas e a finura das sensações são
admiravelmente apropriadas aos cuidados da maternidade. Aos
homens e às mulheres, são, pois, atribuídos deveres especiais,
igualmente importantes na ordem das coisas; são dois elementos
que se completam um pelo outro.
Sofrendo o Espírito encarnado a influência do
organismo, seu caráter se modifica conforme as circunstâncias e se
dobra às necessidades e exigências que lhe impõe esse mesmo
organismo. Esta influência não se apaga imediatamente após a
destruição do envoltório material, assim como não perde
instantaneamente os gostos e hábitos terrenos. Depois, pode
acontecer que o Espírito percorra uma série de existências no
mesmo sexo, o que faz que, durante muito tempo, possa conservar,
no estado de Espírito, o caráter de homem ou de mulher, cuja
marca nele ficou impressa. Somente quando chegado a um certo
grau de adiantamento e de desmaterialização é que a influência da
matéria se apaga completamente e, com ela, o caráter dos sexos. Os
que se nos apresentam como homens ou como mulheres, é para
nos lembrar a existência em que os conhecemos.
Se essa influência se repercute da vida corporal à vida
espiritual, o mesmo se dá quando o Espírito passa da vida espiritual
à vida corporal. Numa nova encarnação ele trará o caráter e as
inclinações que tinha como Espírito; se for avançado, será um
homem avançado; se for atrasado, será um homem atrasado.
Mudando de sexo, sob essa impressão e em sua nova encarnação,
poderá conservar os gostos, as inclinações e o caráter inerentes ao
sexo que acaba de deixar. Assim se explicam certas anomalias
aparentes que se notam no caráter de certos homens e de certas
mulheres.
Não existe, pois, diferença entre o homem e a mulher,
senão no organismo material, que se aniquila com a morte do
corpo; mas quanto ao Espírito, à alma, ao ser essencial, imperecível,
ela não existe, porque não há duas espécies de almas. Assim o quis
Deus em sua justiça, para todas as suas criaturas. Dando a todas um
mesmo princípio, fundou a verdadeira igualdade. A desigualdade só
existe temporariamente no grau de adiantamento; mas todas têm
direito ao mesmo destino, ao qual cada uma chega por seu trabalho,
porque Deus não favoreceu ninguém à custa dos outros.
A doutrina materialista coloca a mulher numa
inferioridade natural, da qual só é elevada pela boa vontade do
homem. Com efeito, segundo essa doutrina, a alma não existe ou,
se existe, extingue-se com a vida ou se perde no todo universal, o
que vem a dar no mesmo. Assim, só resta à mulher a sua fraqueza
corporal, que a põe sob a dependência do mais forte. A
superioridade de algumas não passa de uma exceção, de uma
bizarria da Natureza, de um jogo de órgãos, e não poderia fazer lei.
A doutrina espiritualista vulgar reconhece a existência da alma
individual e imortal, mas é impotente para provar que não há
diferença entre a do homem e a da mulher e, por conseguinte, uma
superioridade natural de uma sobre a outra.
Com a Doutrina Espírita, a igualdade da mulher não é
mais uma simples teoria especulativa; já não é uma concessão da
força à fraqueza, mas um direito fundado nas próprias leis
da Natureza. Dando a conhecer essas leis, o Espiritismo abre a era
da emancipação legal da mulher, como abre a da igualdade e da
fraternidade."

É evidente a negação do princípio do sexo nos espíritos, mas também é a contradição com a doutrina das colônias espirituais. A contradição fica mais evidente com a comparação entre o livro "Nosso lar" (ditado pelo espírito André Luiz) e O Livro dos Espíritos. O leitor poderá observar comparando os dois livros que muitas vezes o que é afirmado no livro "Nosso Lar" é negado por O Livro dos Espíritos e vice-versa. DEIXAMOS AQUI UM QUADRO COMPARATIVO ENTRE AS DUAS OBRAS, QUE SÓ TERÁ VALOR COMO FONTE DE PESQUISA SE O LEITOR ESTUDAR COMPARANDO OS LIVROS JÁ CITADOS:

Quadro Comparativo: (1)

(1) Este quadro comparativo está contido na monografia "Tratado de Pesquisa sobre as Colônias Espirituais, de autoria do Sr. Marcos Antonio Borges Sousa.

 

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